"Somos como águias enjauladas; mas mesmo por detrás das grades podemos olhar os céus expansivos e extrair inspiração de uma estrela." Pensamentos para aspirantes- Sri Ram

Dia Mundial da Poesia

Como me tornei varredor
Quantos corpos construíste para mim?
Desde a aurora do início do tempo?
Na marcha dos ciclos sem fim,
Quantas vezes dignifiquei o meu aposento?

Ampliei-os com terra e cimento.
Plantei e colhi odoríficas flores.
Portas e janelas abri ao vento,
E arremessado fui no turbilhão das dores.

Mas houve um dia em que sonhei com o silêncio
Imposto pela voz do fogo a crepitar.
Da lareira que estava esquecida no centro,
Vinha uma Voz que mil vozes fazia calar.

Despertando, arrastei cadáveres empilhados,
Procurando essa fogueira esquecida.
E ao meu redor entoaram murmúrios encantados,
Tentando-me com as ilusões da vida.

Não vejo com os meus olhos esse fogo,
Mas ao longe escuto um eco da sua palavra.
Cresci, quebrando os grilhões do meu conforto,
Na busca do lugar da sua secreta morada.

Varro, limpo e com ordem disponho
O caos que eu mesmo criei e que me amarra.
E quando a ilusão me atenta contra o sonho,
Invoco o fogo eterno que nunca se apaga.

Assim foi como me tornei varredor,
E limpando encontrei as linhas de um livro.
Uma contínua história de amor
Que a Natureza partilha com o seu Amigo.

Na senda do Fogo, eis o que vi e ouvi…

O que disseram as Pedras
Rainhas do ténue murmúrio
Matrizes de um passado feito presente.
Sois as mães do mais recôndito refúgio
De um mundo forjado no vosso ventre.

Calcaram-vos inúmeras gerações
De Humanidades agora esquecidas
Agora marcam-vos os tacões
Dos pais das Humanidades prometidas.

Sois o início da Grande Obra
Do ideal do imanifesto artista.
É o cinzel da vida dá a forma
À pedra mágica do alquimista.

Em tempos, vós, sozinhas erguestes templos,
Firmes como a vontade dos povos construtores.
Sobre vós verteram-se unguentos
Nos sagrados altares interiores.

Guardiãs de mágicas palavras,
Escritas à luz do sol e do luar
Sois as primeiras páginas lavradas
Da história deste despertar.

E paciente aguardais novamente
Pelo retorno da tranquilidade do pó.
Imóveis esperais serenamente.
O sétimo acorde, esse último dó.


Da Água dos rios, ribeiras e riachos
Filha do céu quando dele descendes
Precipitas-te para o corpo que te contém.
És pura força em torrentes
E purificadora também.

Por isso tens o fogo como irmão,
Quando livras o ser do seu tormento,
Da sujidade que lhe causa a ilusão,
Onde reside o seu sofrimento.

Na tua essência está o fluir
E ninguém te prende pela mão.
E se fores impedida de partir
O tempo te libertará da prisão.

Se as grades tecerem esse crisol
De fazer-te esquecer a tua livre natureza,
Volatilizas-te no beijo quente do sol
Para voltares a cair na senda da beleza

Vitalizas a terra que o arado rasga
E fecundas quando és sangue, lágrimas e suor.
Se faltas a vida acaba
E os secos campos gemem de dor.

Mostra-nos, que a vida é movimento
E a mesma vida desabrocha ao teu redor.
Animas o físico no tempo
Em que ele se banha no teu fulgor.


Notas de Flores de um jardim
Que graciosas sois, ó minhas flores!
As vossas cores são música para as emoções.
Estremeceis o corpo com frios e suores,
Nas paletes das vossas canções.

O vosso perfume completa o acorde
Que ressoa na alma do apaixonado.
Submeteis a razão com um simples toque
No coração do pobre coitado.

Esse, querendo-lhes sentir as pétalas
Termina com sementes nos seus dedos.
Depois na pele durante décadas
Germinaram inebriantes flores de desejos.

E assim se vê arrebatada
A imaginação pela fantasia.
E toda a vivência é classificada
Pelo gosto, desgosto ou apatia.

Sois no entanto um jardim encantado,
De cores em subtil acção
E quem inconscientemente lá tenha entrado
Só de lá sai pela rectidão.

Assim, sois para ser vistas mas não colhidas,
A vossa presença dá cor a qualquer gesto,
Rosas ficam bem nas despedidas,
Lírios azuis no regresso.

Borboletas e pensamentos
De tantos tamanhos, formas e feitios.
Com múltiplas cores saltitam no ar.
Batendo as franzinas asas alguém as viu
Procurando lugar seguro para pousar.

Vão e vêm não sei de que paragem.
Talvez o vento as traga e as leve.
Talvez sejam penas que se soltem
De Águias de um mundo celeste.

Quando nas borboletas nos fixamos,
Seja em casa, no trabalho ou na rua,
Com os pés firmes na terra escutamos
Dizer que estamos com a cabeça na lua.

Se há coisas que com elas gostamos de fazer
É compará-las, medí-las e pesá-las.
E magicamente, novas borboletas fazemos nascer
Neste jogo infinito que é raciocina-las.

Oh! E como elas gostam de flores!
E como seduzem as fantasias de as ver pousar!
Borboletas e flores são sinónimo de cores,
De fugas e ausências do lugar.

Quando para além delas conseguimos olhar
E o infinito azul do céu contemplamos.
Lá no alto está uma Águia a voar
E são essas as asas que procuramos.


Autor: Afonso Diniz de Claraval

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