"Somos como águias enjauladas; mas mesmo por detrás das grades podemos olhar os céus expansivos e extrair inspiração de uma estrela." Pensamentos para aspirantes- Sri Ram

Ciclos do Tempo



Tudo tem o seu tempo, ou seja, tudo o que se manifesta um dia irá desaparecer. Esta é uma Lei que qualquer um vive e constata quase diariamente.

A cada segundo que passa deixamos para trás uma marca e essa marca tem o nome de História.
 A questão que coloco é a seguinte, teremos nós a consciência dessa história?

Deixo esta questão em aberto para cada um reflectir sobre ela. Entretanto, dessa reflexão alguns poderão ir de encontro a um facto, a História é uma memória e como memória participa na construção da consciência. Como assim? Simples, um dia nos queimámos, se não guardássemos o registo desse momento, se no momento presente em que estamos diante de uma fogueira, se não estivermos conscientes que o fogo queima, o mais provável que possa acontecer é que nos vamos mesmo queimar. Assim, nós possuímos a nossa História individual que participa na formação do nosso ser, e quanto mais ignorantes formos relativamente a ela, maior os sofrimentos que nos acometerão.

Para as grandes Culturas da Antiguidade, a Humanidade era tida como um único Ser. Cada Homem estava para esse ser como uma célula está para o nosso corpo, uma estrutura de células, por exemplo seria uma cidade, um órgão, por exemplo, uma civilização, etc. Tudo possuindo uma história particular, submergida numa história superior à sua.

Uma célula do nosso pé, possivelmente não terá a consciência de uma célula da nossa mão. Cada uma tem o seu ciclo de vida, cada uma tem a sua história, mas “nós” podemos ter consciência destas duas células simultaneamente. No nosso dia a dia criamos a nossa história e muitas das vezes nem damos conta da história de cada uma das nossas células, mas ela é vital para a nossa história, basta que uma degenere e, pois é, um tumor pode surgir e daí até ao fim da nossa história pessoal, são dias.

Assim como as células, cada um de nós também assume comportamentos que são verdadeiras doenças para o grande ser que é a humanidade e podemos traçar todas as analogias com o corpo físico que possuímos para prevermos o destino que lhe impomos.

“Tudo tem o seu tempo”, assim iniciei este artigo, tudo nasce, atinge um auge e por fim morre e o que veio do pó volta para o pó. Se retirássemos os substantivos que individualizam a manifestação e que a tornam tão diversa e independente aos nossos olhos, tudo o que à nossa vista se depara revelaria uma Lei bem conhecida em várias Tradições filosóficas, denominador comum este que está revelado na primeira frase deste paragrafo, tudo é cíclico, tudo nasce, tudo tem um apogeu, tudo morre e sobre este ciclo um outro toma inicio. Uma célula do nosso corpo morre, cumprindo na plenitude a sua tarefa mas uma outra surge no seu lugar, até ao dia que o nosso corpo físico morre e por aí em diante. Ciclos dentro de ciclos e assim, Cada País tem o seu ciclo, cada continente tem o seu ciclo, cada Raça tem o seu ciclo e toda a Humanidade tem o seu ciclo.

Hoje em dia, temos toda uma tecnologia que os nossos irmãos do passado não possuíam, por outro lado, a Verdade está muito mais esquecida nos nossos tempos que já alguma vez esteve e este conhecimento da ciclicidade dos eventos era bem conhecido na Antiguidade. Não só o conheciam, como conheciam também as várias fases que o compunham. Textos sagrados Hindus, textos de Platão, o Antigo testamento, são alguns dos exemplos que abordam este tema. Platão dizia que tudo atravessa 4 fases na seguinte ordem: uma de Ouro, uma de Prata, uma de Bronze e outra de Ferro. Da fase de Ouro para a fase de Ferro à uma diminuição da espiritualidade para dar lugar à materialidade, até que por fim, de tão material que o manifesto se torna, desintegra-se e sobre as cinzas da morte um novo inicio Áureo começa onde o impuro não tem lugar.

Tal ensinamento surge também no antigo testamento na passagem do Livro de Daniel, a quando do sonho do Rei Nabucodonosor.
 Livro de Daniel Cap. II
“31 Tu, ó rei, estavas vendo, e eis aqui uma grande estátua; essa estátua, que era grande, e cujo esplendor era excelente, estava em pé diante de ti; e a sua vista era terrível.
32 A cabeça daquela estátua era de ouro fino; o seu peito e os seus braços, de prata; o seu ventre e as suas coxas, de cobre;
33 as pernas, de ferro; os seus pés, em parte de ferro e em parte de barro.
34 Estavas vendo isso, quando uma pedra foi cortada, sem mão, a qual feriu a estátua nos pés de ferro e de barro e os esmiuçou.
35 Então, foi juntamente esmiuçado o ferro, o barro, o cobre, a prata e o ouro, os quais se fizeram como a pragana das eiras no estio, e o vento os levou, e não se achou lugar algum para eles; mas a pedra que feriu a estátua se fez um grande monte e encheu toda a terra.”

Nos Textos Hindus estas fases são conhecidas por Yugas. Etimologicamente, Yuga – Vem do sânscrito e significa Idade; uma idade do mundo. E tal como anteriormente foi escrito, Apontaram 4 Yugas: Satya Yuga, Treta Yuga, Dvapara Yuga e Kali Yuga.

Por exemplo, para a Idade de Ouro, ou Satya Yuga (sânscrito) – Satya (Realidade, Verdade) + Yuga (Idade) é a idade da verdade, pureza, realidade. É a idade em que o eterno é presente e correcto, onde os deveres não são um estorvo e não tornam enfastiado o homem. O esforço não existe, nem a malícia, orgulho, inveja, crueldade, medo, aflição, etc.
Só existe um Deus, uma fórmula, uma regra, um rito.

Dizem estes textos sagrados que a nossa Raça actual, que a grande parte da nossa humanidade iniciou o Kali Yuga, a Idade de Ferro de Platão, também conhecida como idade das trevas há 5 000 anos atrás.
É impressionante como textos escritos à milhares de anos atrás descrevem na perfeição o que acontece nos nossos dias. O Vishnu Purana: (Um dos textos sagrados Hindus) diz o seguinte sobre o Kali Yuga:

“A saúde e a piedade irão diminuir até o mundo se tornar todo depravado. A Propriedade somente irá conferir estatuto; a saúde será a única fonte de devoção; a paixão será o único elo de união entre os sexos; a falsidade será o único meio de sucesso nas litigações; as mulheres serão objecto de mera gratificação sensual…um homem rico será reportado como puro; a desonestidade será o meio universal de subsistência, a fraqueza causa de dependência. A ameaça e a presunção serão o substituto para a aprendizagem; a liberalidade será devotada; roupas finas. O que for mais forte irá reinar. Assim irá a idade de Kali decair constantemente, até que o homem se aproxime da sua aniquilação.”

Que papel deve o Homem desempenhar? Simples, a todo o custo manter viva a chama que faz dele um Homem e não um animal. Manter viva a chama dos ideais superiores, das virtudes e manter viva esta chama não é só saber em teoria mas sim viver estes mesmos ideais, agindo assim, será uma candeia nas trevas.
Este Homem será o berço do Homem novo e esta cultura actual, cada vez mais decadente, será para o Homem novo aquilo que, por exemplo, a cultura Aborígene é para o Homem da cultura dita “actual”, um fóssil a caminho da extinção.

A Vontade que nos guia, o Amor que nos integra e a Inteligência que nos ordena é o que de mais elevado existe em nós e na Humanidade, é a nossa verdadeira essência.

Bravos e Firmes.


4 comentários:

Maria Ribeiro disse...

AZOTH: este seu texto é uma maravilha de informações ,de alto teor ,sobre o Homem e a Humanidade. Muito profundo , deixou-me a pensar na nossa"qualidade" de seres humanos o no que perdemos quando não nos esforçamos para nos conhecermos, saindo da mediocridade.Se é verdade ,como diz PONGE que"O homem é o futuro do homem", que futuro estaremos a ver surgir, lentamente, desta humanidade?
ABRAÇO FRATERNO:.
LUSIBERO

Ticha disse...

Assim, de repente, parece que este texto está escrito para mim.
De repente noto que, nesta história escrevo as minhas páginas e as páginas de uma época.
Quando alguém, lá no futuro... de amanhã ou depois, olhar para os dias de hoje e disser que atravessámos momentos difíceis e que milhares de pessoas na Europa e no mundo ficaram no desemprego, atingindo nºs altíssimos... de repente... vou ser uma célula, um nº a fazer a contabilidade de tantas células... tantos números.
Ticha

Azoth disse...

Bom dia Maria

A humanidade um dia irá alcançar o seu ideal. Para isso, a chama desse ideal tem de se manter acesa especialmente nos piores dias de tempestade, abrigada da chuva, do vento e da lama. Pois embora a chama possa ser pequena, basta que encontre madeira seca e será capaz de atear a mais esplendorosa fogueira.
Acredito que a humanidade, no futuro, irá ter um esplendor inimaginável por nós.

Falei da humanidade, agora, a humanidade actual, nós e os que nos precederem. Penso que nos aguardam grandes lutas, algumas já as estamos principiando. O “corpo” desta humanidade começa a decompor-se e o sinal disso é o crescente de conflitos e crises. Não há dia que não aconteça uma desgraça.

É impossível consertar as coisas de fora se a vida já não anima um cadáver. Pois bem, esta humanidade ainda não é cadáver mas caminha para lá.

No entanto, a sagrada chama ainda está presente e há quem abdique inclusive do conforto da sua personalidade para a proteger e passar ao próximo. Como encontrar estas pessoas? Simples, pelos seus gestos Humanos.
Aqui está a esperança, aqui está a alegria e a felicidade de que enquanto a cadeia não se quebrar, a Ideia do verdadeiro Homem será cumprida um dia.

Cumprimentos Fraternos :.

Azoth disse...

Bom dia Ticha

Pois é, à luz daquilo que o homem poderá vir a ser, há quem afirme que estes séculos e os próximos serão recordados para a história como os séculos da vergonha. Vergonha não para a maioria daqueles que os vivem, porque para esses esta depravação de valores parece normal, mas para aqueles que lerem nos manuais a história que o homem actual está a escrever.

Tratamos tão mal o semelhante e a nós mesmos que quando a Ideia de Fraternidade deixar de ser uma ideia e passar a ser um facto, o Homem desses tempos irá ficar tão perturbado com a história destes tempos que o seu coração ficará imensamente apertado e lágrimas lhe cairão dos olhos. Ou então, talvez a natureza tenha caridade daquilo que nessa altura poderemos sentir face a este presente e tal como na ocasião de um grave acidente as imagens e os momentos desse acidente se apagam da nossa memória, qual bênção divina, para um novo recomeço sem o trauma do vivido, assim, tal catástrofe irá se abater sobre esta humanidade, que os sobreviventes apenas irão recordar do passado vagas imagens.

A Humanidade é um Ser, cada um de nós é somente uma célula.

Cumprimentos Fraternos :.

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