"Somos como águias enjauladas; mas mesmo por detrás das grades podemos olhar os céus expansivos e extrair inspiração de uma estrela." Pensamentos para aspirantes- Sri Ram

Cristo




A palavra Mito tem origem na palavra grega Mythos e significa “Aquilo que contém uma verdade”. Funcionalmente, o mito é como um fino véu, opaco, que não mostrando o objecto que cobre deixa a descoberto a sua forma. Operando o homem sobre esta forma poderá, consoante as chaves que possuir caminhar no sentido de lhe ser revelada essa mesma verdade.

O mito é uma realidade para a alma, aquela parte do homem que os gregos chamaram de Phsyque, a intermediária entre o divino (Noús) e o mundano (Soma). EM certa medida podemos considerar Noús como o mundo das ideias puras, ou o mundo dos Arquétipos que Jung se refere nos seus trabalhos. Soma é o mundo físico, o palco onde nós representamos e onde maioritariamente a nossa consciência se foca.

Embora o mito seja uma realidade subtil, pode de quando a quando ter uma realidade histórica, ou seja, de quando a quando, a ideia que descreve pode se plasmar num tempo e espaço finito. Um exemplo, tomemos o mito de Hércules. Quantos e quantos bravos e corajosos homens, já encarnaram ideias que este mito vela, ao ponto de nós mesmos acharmos que as suas façanhas são Herculanas? Mas terá o mesmíssimo Hércules existido num tempo histórico?
Muitos Hércules existiram, sem dúvida, mas aquele Hércules mitológico provavelmente não.

Há quem diga que só parte da verdade tenha chegado aos autores dos Evangelhos, há que diga que não. Não me compete a mim julgar pois não estou a esse nível. O que posso dizer e note-se que é somente a minha opinão e não coisa certa, pelo estudo comparativo das Tradições, mais os relatos bíblicos se aproximam de verdades subtis, intemporais, que de verdades históricas, temporais.

Peguemos no novo testamento Terá Cristo existido? Sim, é provável que sim. É provável que algum humano há dois mil anos atrás tenha encarnado o arquétipo de Cristo, como antes também o ocorrera como  voltará a ocorrer.
Serão verdades históricas os relatos bíblicos? Provavelmente não, ou então somente poucos. Se não ocorreram tais eventos, escreveram os autores dos Evangelhos mentiras? Não, escreveram relatos míticos.

Tome-se aquele que se aproxima, o nascimento de Cristo.
A profundidade do significado de Cristo é imensurável, o drama da sua vida é, possivelmente representado em todos os patamares cósmicos. Revelam-nos as antigas Tradições apenas um pouquinho do véu.
 Cristo é o menino Sol de Tradições mais antigas e simultaneamente o Amor, Sabedoria, a capacidade de iluminar e vivificar que o homem possui no seu íntimo, no Trono do seu coração. Cosmicamente Cristo é o Sol e não é por acaso que o Nascimento de Cristo se situa tão próximo do solstício do Inverno, a noite mais longa do ano, aquela em que as trevas têm o seu auge, mas note-se, na noite mais tenebrosa nasce o Menino Sol, e a partir daí os dias serão maiores. Internamente vive o homem um drama semelhante, envolto nas suas trevas e trevas é tudo aquilo que o faz ignorante, porque na ignorância está a causa do seu sofrimento. Quando em si nasce a luz do conhecimento que advém da sabedoria, o que em si antes estava  escuro agora começa aos poucos a ser iluminado permitindo que ele consiga passar por entre os obstáculos e não mais ser impedido pelos mesmos.
Cristo é Horus, combatendo Seth.

Jesus nasce numa gruta, ou numa manjedoura, símbolos da personalidade do homem. Símbolos da imperfeição que tem de ser aperfeiçoada e o é somente pela luz da sabedoria. No intimo do nosso ser estão todas as respostas. Um dia, também Teseu se aventurou pelo escuro labrinto e ao matar o Minotauro, chegou um pouquinho mais perto da luz e do labirinto saiu com o fio de Ariadne enrolado em forma esférica, símbolo da perfeição da personalidade. Teseu, é o herói que procura esse Deus Menino Sol, mata o Minotauro, símbolo da adversidade, o motivo do próprio labirinto e avança todos os dias um pouco nessa procura.

José, como H.P.B. aponta, poderá assumir o mesmo papel que o Visvakarman Védico (Tvashtri), o artista e arquitecto divino, ou no imaginário maçónico, aquele que segura o compasso, uma personificação força cósmica formativa do Logos.
Maria é outro símbolo profundo, numa das chaves, representa a matriz virgem, na qual todos os universos são formados, nos seres humanos, o nascimento do conhecimento a partir da experiência na ilusão da vida. José e Maria são os dois grandes Princípios cósmicos e da sua união nasce a forma, o corpo do Menino Sol. No entanto, o espírito que alimenta este corpo é de natureza divina e tal facto é nos indicado pela presença do burro e do touro. O burro é um símbolo de Set, Typhon, Jehovah ou Saturno, o burro acalentando o menino Sol, mantendo-lhe a vida, pode ser visto como sendo um protegido de Saturno, uma vez que para as antigas Tradições, Saturno é o regente da Terra física. O Touro por sua vez é um dos símbolos mais sagrados da actual Raça Humana e “representa os poderes da geração no seu aspecto cósmico, em contraste com os aspectos gerativos terrestres e humanos representados pelo carneiro e por vezes pelo cordeiro. Também ele aquece com o seu bafo o menino.

No centro dessa gruta que não é senão o nosso intimo desenrola-se esse drama. Cada um de Nós possui uma chama divina que nasce e durante uma vida, em muitos de nós e em silêncio, cresce e luta contra as trevas que possuímos sacrificando-se na matéria, para que possamos no dia que se segue sermos melhores daquilo que somos hoje.

O Sábio é aquele que por vontade própria ajuda a sua verdadeira natureza que é esse Cristo, esse fogo do amor, a manifestar-se em seu esplendor, e aí essa luz, embora seja anunciada e ilumine a gruta atraindo até ela todos aqueles que procuram a verdadeira salvação, que é nada mais nada menos que a Verdade, Sai da gruta e opera no mundo ao seu redor, Integrando e conduzindo cada um ao interior de si mesmo.


Feliz Natal

Em favor da Arte

De onde veio o que escrevi?
Deus certamente que o criou.
Mas, será que a minha mente o encontrou?
Como a minha carne aquele jardim
Que no passeio eu vi?
Ou será esse poema célula do corpo,
Aquele que de pensamentos é feito
E que na imaginação tem o seu leito?

Não sei.
Apenas sei que o escrevi.
Que no silêncio o escutei.
Mas não sei se o encontrei muito menos se a mim mesmo o ditei.

Assim, escrevi-o para ser lido.
Sem motivo outro que não fosse o de ser entendido.
Porque em fazê-lo entender é parte da arte.
E se foi com arte que o escrevi,
Naqueles que o tenham lido
A parte em falta terá surgido que é o bem e em bem terão ficado.

Mas o bem é difícil a razão entender.
Pois não é coisa medida,
Temporizada
Ou pesada.
Antes dizer, se o bem fizer da razão morada,
Será esta por Justiça,
Prudência,
Temperança
E Coragem vivificada.

Na emoção o bem também tem casa
E serena-a quando nela habita.
Retira o bem a paixão da escrita,
Insuflando-a de amor torna-a bendita.
E por magia no coração do leitor
A tentação vê-se transmutada
E a tristeza ausentada.
Não mais as palavras são malditas
Ou o seu entendimento não abençoado.
São flores as palavras escritas
E desta forma vive o sagrado.

Quer-se assim o poema na simplicidade escrito
E nele o bem faça o seu templo.
Porque se algo há em ser dito
Que seja a paz e não tormento.


Azoth

Ordem de Cavalaria




“-Sancho amigo, hás-de saber que eu nasci, por determinação do céu, nesta idade de ferro, para nela ressuscitar a de ouro. Sou eu aquele para quem estão guardados os perigos, as grandes façanhas, e os valorosos feitos. Sou, torno a dizer, quem há-de ressuscitar os da Távola Redonda, os doze pares de França, e os nove da Fama; o que há-de por em esquecimento os Platires, os Tablantes, Olivantes e Tirantes, os Febos e Belianises. Com toda a caterva dos formosos cavaleiros dos passados tempos, fazendo neste em que me acho tais grandiosidades, estranhezas e feitos de armas, que escurecem os que eles fizeram mais brilhantes. Bem estás vendo, escudeiro fiel e de lei, as trevas desta noite, o seu estranho silêncio, o soturno e confuso estrondo destas árvores, o temeroso fracasso daquela água, em cuja busca vimos, que parece que se despenha e derruba desde os altos montes da lua, e aquele incessante martelar que nos fere e importuna os ouvidos, as quais coisas todas juntas, e cada uma só por si, são bastantes para infundir medo, temor e espanto ao peito do mesmo Marte, quanto mais a quem não está acostumado a semelhantes estranhezas e aventuras. Pois tudo isto, que eu te pinto, são incentivos e despertadores do meu ânimo, que já está fazendo que o coração me rebente no peito, com a ânsia que tem de acometer esta aventura, por temerosíssima que se mostra.”

“Don Quijote de la Mancha”
Miguel de Cervantes

A Imagem Divina

Por Clemência, Piedade, Paz e Amor
todos rezamos na aflição;
e para tais virtudes deliciosas
se volta a nossa gratidão.

Pois Clemência, Piedade, Paz e Amor
é Deus, o nosso pai adorado;
e Clemência, Piedade, Paz e Amor
o Homem, Seu filho e Seu cuidado.

Pois a Clemência tem um peito humano,
e o Amor forma humana celeste,
e um rosto humano tem a Piedade,
e a Paz exibe humana veste.

Assim todo homem, pelo mundo afora,
que reza em sua humana dor,
pede só à divina forma humana
Clemência, Paz, Piedade, Amor.

E amar a forma humana devem todos,
sejam pagãos, turcos, judeus;
onde habitam Clemência, Amor, Piedade,
ali também habita Deus.

William Blake

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