"Somos como águias enjauladas; mas mesmo por detrás das grades podemos olhar os céus expansivos e extrair inspiração de uma estrela." Pensamentos para aspirantes- Sri Ram

Do Mestre para seu discípulo Zaid


“Ao amanhecer, o Profeta disse a Zaid: "Como estás esta manhã, ó discípulo puro?"

Ele respondeu: “Teu fiel servo eu sou".

De novo ele disse: "Se o jardim da fé floresceu, mostra um sinal disso".

Ele respondeu: "Estive sedento muitos dias, À noite, não dormia com a dor ardente do amor; Então passei por dias e noites, Como a ponta de uma espada ricocheteia num escudo. Pois nesse estado, toda fé é uma, Cem mil anos e um momento são um só; Mundo sem começo e mundo sem fim são um; A razão não encontra acesso quando a mente está assim perdida".


O Profeta insistiu novamente com Zaid que este lhe desse algum presente daquele lugar celeste, como testemunho de que realmente estivera lá em espírito. Zaid respondeu que vira os oito céus e os sete infernos, e o destino de todos os homens, fadados ao céu e ao inferno.

"O corpo", disse ele, "é como uma mãe e a alma o seu bebé; a morte é o momento do parto, quando se torna manifesto a que classe pertence a alma do bebé". Assim como no dia do julgamento será manifesto a todos os homens se determinada alma pertence aos salvos ou aos perdidos, tudo isso agora era claro e manifesto para ele.

Ele perguntou então ao Profeta se deveria tornar público o seu conhecimento secreto a todos os homens, ou se deveria calar-se. O Profeta disse-lhe que se calasse. Zaid, porém, começou a descrever em detalhes a visão do último julgamento, que ele vira em espírito, e o Profeta ordenou-lhe novamente que parasse, acrescentando que "Deus não tem vergonha de dizer a verdade" e permite que Seu Profeta diga a verdade, mas que seria errado Zaid divulgar os segredos vistos numa visão extática. Zaid respondeu que era impossível para alguém que contemplara uma vez o Sol da Verdade guardar segredo de sua visão. Mas o Profeta em resposta ensinou-lhe que todos os homens são senhores de suas próprias vontades, e que ele não deveria revelar o que Deus determinou que se mantivesse em segredo até ao Último Dia, para até então deixar os homens sob o estímulo da esperança e do medo, e dar-lhes o mérito de "crer no invisível".

Mais honra será dada ao sentinela do castelo que executa fielmente sua missão longe da corte do que àqueles cortesãos que servem constantemente sob os olhos do rei.

Zaid submeteu-se às ordens do Profeta e manteve-se reservado sobre suas visões extáticas.”

“MASNAVI”

Jalaluddin Rumi

3 comentários:

sonho disse...

"Mas o Profeta em resposta ensinou-lhe que todos os homens são senhores de suas próprias vontades"...Até podemos ser...mas...se as nossas vontades forem contra as regras da sociedade...sujeitamo nos a represalias...Valerá a pena ser senhores das nossas proprias vontades?
Beijo de um anjo

Azoth disse...

Um bem-haja, Sonho

A questão que coloca é muito profunda e pertinente. A resposta a ela, por sua vez, pode não ser fácil de compreender.

Respondendo então, com o pouco que conheço, digo-lhe que Sim. Mas desde que a vontade seja entendia como sendo a verdadeira vontade, aquela que provem do Ego e não aquilo que muitas vezes chamamos de vontade e nada mais é do que o desejo que algo externo a nós desperta em nós. Esta última ideia é fácil de entender se utilizarmos o efeito que o marketing exerce sobre o nosso campo psicológico. Podemos acrescentar que todos os objectos exercem uma atracção sobre nós e quanto maior for a carga psicológico/mental que possuamos relativamente a esse objecto maior é essa força, que muitas vezes confundimos como sendo a nossa vontade, mas não é.
Por outro lado, a nossa vontade tem de estar em harmonia, sintonia, ou como melhor entendermos, com a verdadeira lei, lei esta que infelizmente nada tem a ver com a maior parte das leis que conhecemos. Esta Lei, expressa-se através da Ética e da Moral. Assim, sempre que agirmos Eticamente e Moralmente por Dever, estamos a fazer o que tem de ser feito, independentemente de estarmos a fazer algo contrário àquilo que a sociedade está a fazer. Se a sociedade se tornar assassina e nós protegermos a vida, não estamos a fazer nada de errado e não nos temos de tornar assassinos, mesmo que estejamos a rumar contra a maré.

Espero que me tenha feito entender.

Volte sempre.

Iluminada. disse...

bonito post :)

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