"Somos como águias enjauladas; mas mesmo por detrás das grades podemos olhar os céus expansivos e extrair inspiração de uma estrela." Pensamentos para aspirantes- Sri Ram

O Bem e o Sol

Diálogo entre Sócrates e Glauco - A República - 508

“- Admitindo que os olhos são dotados da capacidade de ver, que o possuidor desta faculdade se esforça por servir-se dela e que os objectos aos quais ele a aplica sejam coloridos, se não intervir um terceiro elemento, destinado precisamente a este fim, bem sabes que a vista nada perceberá e que as cores serão invisíveis.
- De que elemento falas, pois? – Perguntou.
- Daquele que denominas luz – respondi.
- Está certo.
- Assim, o sentido da vista e a faculdade de ser visto se unem por um laço incomparavelmente mais precioso do que aquele que forma as outras uniões, se todavia a luz não for desprezível.
- Mas falta muito, indubitavelmente, para ele ser desprezível!
- Qual é, pois, de todos os deuses do céu o que podes designar como o senhor disso, aquele cuja luz permite que os olhos vejam da melhor maneira possível e os objectos visíveis sejam vistos?
- Aquele mesmo que tu designarias, assim como todo o mundo; pois é o sol, evidentemente, que me podes nomear.
- Agora, a vista, por sua natureza, não está na seguinte relação com este deus?
- Qual relação?
- Nem a vista é o sol, nem o órgão onde ela se forma e que chamamos olho.
- Não por certo.
- Mas o olho é, penso, de todos os órgãos dos sentidos, o que mais se assemelha ao sol.
- De longe.
- Pois bem! O Poder que ele conta não lhe advém do sol, como emanação deste?
- Mas sim.
- Logo o sol não é a vista, mas sendo o seu princípio, é apercebido por ela.
- Sim – anuiu.
- Saiba portanto, que é a ele que eu chamo filho do bem, que o bem engendrou semelhante a si mesmo. O que o bem é no domínio do inteligível com referência ao pensamento e seus objectos, o sol o é no domínio do visível com referência à vista e seus objectos.
- Como? – Inquiriu ele; - explica-mo.
- Como sabes – respondi – os olhos, quando os voltamos para objectos cujas cores não são iluminadas pela luz do dia, mas pelo clarão dos astros nocturnos, perdem a acuidade e parecem quase cegos, como se não fossem dotados de visão nítida.
- Sei muito bem disso.
- Mas, quando os voltamos para objectos iluminados pelo sol, enxergam distintamente e mostram ser dotados de visão nítida.
- Sem dúvida.
- Concebe, pois, que ocorre o mesmo em relação à alma; quando ela fixa os olhares sobre aquilo que a verdade e o ser iluminam, ela o compreende, o conhece e denota que é dotada de inteligência; mas quando os dirige para o mesclado de obscuridade, para o que nasce e perece, a sua visão se debilita, ela não tem mais do que opiniões, passa incessantemente de uma a outra e parece desprovida de inteligência.
- Com efeito parece desprovida de inteligência.
- Confessa, portanto, que aquilo que difunde a luz da verdade sobre os objectos do conhecimento, é a ideia do bem; visto que ela é o princípio da ciência da verdade, podes concebê-la como objecto do conhecimento, porém, por mais belas que sejam estas duas coisas, a ciência e a verdade, não te enganarás de modo algum, pensando que a ideia do bem é distinta e as supera em beleza; como, no mundo visível, é certo pensar que a luz e a vista são semelhantes ao sol, mas errado acreditar que sejam o sol, do mesmo modo, no mundo inteligível, é justo pensar que a ciência e a verdade são, ambas, semelhantes ao bem, mas falso acreditar que uma ou outra seja o bem; a natureza do bem há de ser considerada muito mais preciosa. “

“A República”
Platão

7 comentários:

Isa from Aveiro disse...

A obra de platão é admirável, faz-nos reflectir! Foi bom relembrar este grande filosofo cheio de profundidade! Obrigada

Azoth disse...

Olá Isa.
Sem dúvida.
É assombroso constatar que há mais de dois mil anos atrás, a mentalidade humana era muito mais aberta que a mentalidade actual. Aprofundámos o conhecimento no mundo físico mas tornámo-nos menos inteligentes. Por outro lado é inadmissível a forma como se abordam os filósofos clássicos nas escolas, pois a única mensagem que fazem passar para os estudantes é a do aborrecimento. A filosofia clássica, é uma forma de vida, os textos talvez sejam o menos importante, o importante são as ideias que se tentam atingir e plasmar, tudo em prol de uma humanidade melhor.
Veja-se só este pequeno exemplo das belíssimas e riquíssimas ideias que surgem neste livro, A Republica, Platão em 400 A.C escrevia que as Mulheres e os Homens no estado ideal deveriam possuir direitos e deveres iguais. È vergonhoso nós só termos colocado na prática tal ideia passados dois mil anos e mesmo assim ainda de uma forma tão imperfeita.
Gostava de deixar aqui o meu apelo para todos os leitores visitarem ou revisitarem a filosofia clássica. Garantidamente vão lá encontrar verdadeiros tesouros para superar as maiores e mais silenciosas doenças dos nossos tempos, medo, angustia, depressão, isolamento.
Obrigado eu pelo comentário.

rogerio franco disse...

Enquanto "eu" não sabia nada sobre a luz, podia considerar que ela era divina (!?). Esta é uma crença muito antiga. Depois descubro que se trata de partículas emanadas dos átomos, derivado do calor de fricção provocado pelo aumento de energia recebida de uma fonte exterior. Essas partículas sub-atómicas atingem os meus olhos....(explic. resumida). A partir deste momento, este conhecimento faz-me entender que a luz não tem nada de divino e a poesia renasce.
Situação idêntica se pode aplicar ao entendimento da alma. Pouco sabemos sobre a alma ou consciência. Então, acreditamos, há quem acredite, que se trata de algo divino. Neste momento há já ensaios de explicação com a hipótese de física quântica para explicar determinados sensimentos, inclusivé a consciência. Lembro que a física quântica explica-se a um nível ainda mais profundo do que a física convencional (atómica), inclusivé mais profundo do que a física de partículas (como a luz e os seus fotões).
Então, quando tivermos uma explicação para a existência da consciência através da física quântica, talvez esse entendimento deixe de lado o divino e os deuses e a poesia renasca novamente.
A explicação científica nunca será a verdade definitiva, mas muita coisa já o é, e o que a verdade tem de belo é navegar entre o imutável e o renascer de um novo potencial.

rogerio franco disse...

Azoth, agrsdeço a oportunidade que me dá de divagar sobre temas tão profundos, com a inspiração de Platão, grande mestre! obrigado

lumenamena disse...

Platão é autor de mais de trinta diálogos filosóficos. O interessante em Platão, é mesmo a análise que ele faz sobre a alma. A sua filosofia baseava-se em descobrir ou buscar a essência das coisas. Ele acreditava também que as almas, que se ocupavam com a filosofia e com o Bem, era privilegiada com a morte do corpo. E deixa claro, que toda a alma, ao contrário do corpo, é imortal.

Belíssimo texto que nos proporciona para reflexão.
Obrigada.

Azoth disse...

Um bem-haja Rogério.
As crianças vêm o mundo de uma forma tão sui generis , para elas, a consciência de vida é vastíssima, praticamente tudo está animado e esse todo é fonte e intercambio dessa mesma vida.
A criança cresce e até ao último minuto da sua vida lhe é dito que algumas coisas estão mortas e outras tantas estão vivas e aquele elo inconsciente que possuía com esse todo vivente raramente se torna consciente em adulto.
Pessoalmente, assim como a maioria dos comuns dos mortais, quando aprendi que o arco-íris é o resultado de fenómenos de difracção, para mim também perdeu o seu significado mágico. Mas a partir do momento que se vamos tomando novamente consciência que a noção de vida é muito mais vasta que aquela que nós possuímos, não só o arco-íris volta de novo a ser mágico, como também já desenvolvemos ferramentas que nos vão permitir ter uma acção consciente no mundo que sentíamos inconscientemente em crianças. Uma delas nós conhecemos perfeitamente, a Razão, mas possuímos mais, por exemplo, uma que se tem vindo a desenvolver silenciosamente, a imaginação.
Isto tudo para dizer o seguinte, por nós conhecermos todas as leis que animam a matéria não significa que tenhamos o conhecimento da Causa. Somos como peixes numa dimensão diferente, um peixe vive rodeado de água, nós de um universo de matéria.
Um peixe que nunca tenha saltado entre a linha divisória do oceano e do ar, nunca viveu a experiência de uma realidade diferente da que está habituado. Quando o fundo do mar se mover, o peixe, qual verdadeiro cientista, de certeza que vai encontrar uma equação que lhe permita extrapolar tal movimento, irá chegar de certeza a uma causa que para ele será irrefutável e cientificamente válida, pois ocorre diante dos seus sentidos ou pode ser medida. Mas será que ele algum dia irá saber do efeito da Lua, ou do vento, ou que fora da água existe um mundo tão real quanto o seu? Por outro lado irão existir alguns peixes que dizem que existe algo mais, mas como eles nunca o experimentaram, guiam-se pelas lições de outros peixes, que conseguiram cruzar a fronteira e voltar. Mas a maior parte destas lições não são entendidas porque como se consegue explicar a alguém algo que essa pessoa nunca sentiu? E assim, os peixes criam cultos ao heroísmo e à capacidade do peixe que cruzou o umbral, classificam tal umbral de intransponível, tentam convencer outros que o deus dos peixes reside aí, cria-se uma crença e automaticamente se manifesta o outro pólo, os não crentes surgindo o conflito.
A energia, dizemos que os fotões são energia, melhor dizemos que tudo é energia e Einstein disse até que a energia é E=mc2, mas se formos mais além da sua manifestação no mundo físico o que é que nós podemos dizer acerca da verdadeira natureza da energia, ou seja, o que é a energia. Assim como uma pessoa que veste diferentes casacos coloridos e dizemos que está de vermelho, azul, etc, também dizemos que temos energia potencia, cinética, térmica etc.. mas continuamos sem saber o que é a energia, da mesma forma que desconhecemos a pessoa se só vermos a roupa que ela veste.
Vai chegar o tempo em que a ciência irá operar em todos os campos da dimensão humana e por conseguinte cósmica e então a ciência voltará a ser a Magna Ciência e cairá por terra o dualismo que nos tem ocultado tantos mundos novos, refiro-me ao dualismo ciência-religião.
Como seres humanos que somos, a causa geradora não tem de ser ou luminosa, ou tenebrosa, pois esses são os seus dois aspectos inseparáveis no mundo da manifestação. A causa geradora é una. A electricidade manifesta-se com cargas positivas e cargas negativas, mas em si o que é a electricidade?
Um abraço Rogério, volte sempre.

Azoth disse...

Um bem-haja Lumenamena.
Um grande Filósofo actual Jorge Livraga dizia o seguinte, “não importa sabermos muitas coisas, mas vivermos algumas.” Colocássemos nós em prática um pouco do conhecimento intelectual que possuímos e de certeza seriamos muito mais felizes.
Quanto mais conhecemos, por outro lado, mais “pecamos” porque sabemos o que tem de ser feito e na maior parte das vezes agimos em contrário conscientemente. Coitada da nossa alma, que tanto sabemos acerca dela, e nada fazemos em prol da mesma.

Volte sempre.

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