"Somos como águias enjauladas; mas mesmo por detrás das grades podemos olhar os céus expansivos e extrair inspiração de uma estrela." Pensamentos para aspirantes- Sri Ram

Amor


“O que distingue particularmente o homem é o amar mesmo aqueles que erram e descaminham. Tal amor nasce logo que tu realizas que eles são teus irmãos; que eles andam a tropeçar por ignorância, e não por vontade própria; que dentro de pouco tempo ambos já não serão; e, sobretudo, que tu mesmo não ficaste magoado porque a tua razão-mestra não ficou minimamente pior do que era.”

“Meditações” - Marco Aurélio António

Marco Aurélio António

Marco Annio Vero, o futuro imperador de Roma, nasceu em 26 de Abril de 121 a.D. durante o reinado do Imperador Adriano. O pai, Annio Vero, era um nobre romano, e o avô, com o mesmo nome, tinha sido Prefeito da Cidade e, por três vezes, Cônsul. Ambos os pais morreram ainda novos e, depois da morte do pai, Marco foi adoptado pelo avô, de quem ele fala com caloroso afecto e respeito.

Os anos da infância foram felizes, e de estudo; uma série de tutores dos mais competentes tomaram conta da sua educação e treinaram-no nas doutrinas da filosofia estóica; e embora a sua saúde não fosse nunca muito robusta, gostava de montar a cavalo, caçar, lutar, e de jogos de ar livre. Quando tinha dezassete anos, o Imperador Adriano morreu e sucedeu-lhe Aurélio António (vulgarmente conhecido como António Pio), cuja mulher era uma tia de Marco chamada Faustina. Não tendo filhos varões, António adoptou o jovem sobrinho de sua mulher, mudou-lhe o nome para Marco Aurélio António, nomeou-o seu sucessor e prometeu-o em casamento à sua filha Faustina. O grau de felicidade que Marco encontrou neste casamento é, e continuará por ventura a ser, um enigma.

Os cronistas contemporâneos deliciam-se a relatar pormenorizadamente histórias da despudorada licenciosidade da mulher, e afirmam que ela era tratada com uma indulgência censurável por um marido de longe bom demais para ela. Contudo, as provas de tudo isto são duvidosas; e o certo é que, quando ela morreu, trinta anos mais tarde, Marco sofreu com a sua perda. Ela dera-lhe cinco filhos que ele amava apaixonadamente; mas a morte roubou-lhe sucessivamente todos eles, à excepção do inútil Cómodo, que viveu o suficiente para suceder ao pai.

Dos dezassete aos quarenta anos, como companheiro próximo e colega de António, Marco entregou-se à aprendizagem das artes de governo e à preparação para os seus futuros deveres de imperador. Nesses anos a majestosa imensidão da pax romana, mantida pela administração imperial, estendeu-se a toda a Europa Ocidental e do Sul, ao Norte de África, à Ásia Menor, à Arménia e à Síria. Mas muito do fardo da governação deste vasto domínio centrava-se na pessoa do próprio imperador; e quando António morreu, em 161, caiu sobre Marco uma enorme e pesada responsabilidade. Contrariando os desejos do Senado, levou consigo para o trono, como colega, Lúcio Vero, o outro filho adoptivo de António; e, pela primeira vez, Roma assistiu ao espectáculo de dois imperadores. Quase simultaneamente, os longos anos de serenidade imperial chegaram ao fim. Uma peste espalhou-se desastrosamente por todo o mundo ocidental. Inundações destruíram grandes quantidades de cereal em Roma, obrigando Marco a vender as jóias reais para aliviar o sofrimento dos seus súbditos famintos. A juntar à ansiedade da peste e da fome, ele encontrou-se a braços com sinais de guerra. A paz foi quebrada pelo fragor das armas; nas fronteiras orientais, bandos de ferozes homens tribais do Marcomanni (“homens das marcas”), Quadi, e Sarmati invadiram a raia numa série de tentativas determinadas de penetrar nas defesas do Império. Perante esta ameaça, Marco deixou Roma em 167 para assumir pessoalmente o comando das suas legiões depauperadas no Danúbio. Em 169 Vero morreu, e durante a maior parte dos treze anos seguintes Marco ficou só no seu posto.

Durante um curto intervalo foi chamado à Ásia, onde o comandante das tropas, Avídeo Cássio, se revoltou e se fez proclamar imperador. Mas Cássio foi assassinado por dois dos seus oficiais; e, como é característico de Marco, quando aqueles lhe trouxeram, a cabeça decepada, ele recuou e recusou recebê-los. Ordenou que todos os papéis de Cássio fossem queimados por ler, e tratou os rebeldes com clemência. Durante esta expedição ao Oriente, a sua mulher Faustina, que o acompanhara, morreu; e Marco voltou para o Danúbio para retomar a tarefa de suster a maré invasora da barbárie. Aí, por entre os pântanos enevoados e as ilhas fumegantes daquela melancólica região, ele buscava consolo para as suas horas de solidão e exílio na redacção das suas Meditações. Anos de trabalho árduo e conflito tinham-lhe exaurido o espírito; estava cansado da vida, e, nas suas próprias palavras, «à espera da saída para o retiro». Quando, por fim, uma doença infecciosa o atacou, ele ainda se arrastou alguns dias, vindo a morrer em 17 de Março de 180, com cinquenta e nove anos de idade e dezanove de reinado. «Não chorai por mim,» foram as suas últimas palavras, «pensem antes na pestilência e na morte de tantos outros».”

InMeditações”

Versão portuguesa baseada na tradução inglesa do original, com o título MEDITATIONS, de autoria de MAXWELL STANIFORTH

Edição da Penguin Books

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